Vidigal transforma becos e ruelas da comunidade em cinema

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RIO — Um lençol branco estendido na parede externa de uma casa recebe as imagens de um projetor, fruto de doação. É o suficiente para garantir o brilho nos olhos das crianças diante da exibição de filmes, ao menos uma vez por semana, na favela do Vidigal, na Zona Sul do Rio. Vestidos como se estivessem indo para um cinema de verdade, os pequenos vão chegando aos poucos e, na falta de poltronas, sentam-se no chão, para em seguida receber um pacote de pipoca. É assim que o Cine Vielas, como o próprio nome diz, acontece em becos e ruelas da comunidade, desde que haja um espaço para receber a plateia infantil. Um desses locais é a Pedra da Cruz, conhecida como 25, onde no fim da tarde da última quinta-feira houve a projeção da animação “Hotel Transilvânia 4 – Transformonstrão”.

— É muito legal. É diferente da televisão porque a tela é maior. É bom também para quem não tem televisão em casa — aprova a menina Thayllane da Silva, de 10 anos, fã de filmes de terror.

A iniciativa é do ator formado pelo grupo Nós do Morro e professor de capoeira Sérgio Henrique da Silva da Silveira, de 43 anos, conhecido na comunidade como Gargamel, avô de Heitor, de 7 meses. Ele já recebeu propostas para levar o projeto para uma sala da associação de moradores local, mas optou por mantê-lo itinerante, para poder chegar mais facilmente aos diferentes pontos da comunidade.

Pedra da Cruz, conhecida como 25, recebeu, no fim da tarde da última quinta-feira, a projeção da animação “Hotel Transilvânia 4 - Transformonstrão”. A iniciativa é do ator formado pelo Nós do Morro e professor de capoeira Gargamel
Pedra da Cruz, conhecida como 25, recebeu, no fim da tarde da última quinta-feira, a projeção da animação “Hotel Transilvânia 4 – Transformonstrão”. A iniciativa é do ator formado pelo Nós do Morro e professor de capoeira Gargamel Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

— Não quero ficar preso numa sala, mas não descarto totalmente a ideia. Até sonho com uma sala de cinema na comunidade, desde que seja conjugada com a oferta de cursos de audiovisual, mas sem perder a tradição de levar filmes às vielas, que é a essência do projeto —justifica.

A escolha do lugar de exibição normalmente atende a pedidos da própria comunidade. Na véspera, Gargamel passa pelo local fazendo uma pesquisa informal para saber qual filmes as crianças gostariam de assistir. A projeção é sempre antecedida por curtas educativos, sobre meio ambiente e saúde, além de atividades de recreação. É também durante essas visitas que ele busca a ajuda de moradores e comerciantes, que contribuem com a doação de milho para a pipoca, refrigerantes, pão e salsicha para o cachorro-quente. São as próprias mães ou avós que se oferecem para o preparo do lanche. A pipoca servida na sessão da última quinta-feira foi feita pela moradora Rosilane Alves da Silva, de 32, mãe da Thayllane:

— Além de compartilhar coisas boas com as crianças, o projeto é uma forma de aprendizado. Ele passa filmes e costuma ter palestras sobre temas importantes.

O embrião do projeto surgiu há cerca de cinco anos quando, atendendo ao pedido de crianças da comunidade, Gargamel começou a usar uma TV para fazer exibições de filmes, perto de sua casa. Pouco tempo depois, ganhou o projetor e, na falta de telão, passou a usar o lençol branco.

O projeto, que foi prejudicado pela pandemia — quando migrou para as redes sociais —, voltou com força total nos últimos meses do ano passado, já tendo feito 11 exibições desde então. A ideia é levar filmes até as pessoas que não têm oportunidade de frequentar cinema, além de oferecer uma opção de lazer e ocupação para as crianças.

Pedra da Cruz, conhecida como 25, recebeu, no fim da tarde da última quinta-feira, a projeção da animação “Hotel Transilvânia 4 - Transformonstrão”. A iniciativa é do ator formado pelo Nós do Morro e professor de capoeira Gargamel
Pedra da Cruz, conhecida como 25, recebeu, no fim da tarde da última quinta-feira, a projeção da animação “Hotel Transilvânia 4 – Transformonstrão”. A iniciativa é do ator formado pelo Nós do Morro e professor de capoeira Gargamel Foto: Hermes de Paula / Agência O Globo

— É um trabalho importante, tira o foco da criminalidade ou do mal. Realizando essas atividades, as crianças deixam de brincar de polícia e bandido para se divertir num ambiente com recreação e atividade cultural — resume Gargamel.

Pedidos para ir a outras comunidades

Gargamel já recebeu pedidos para levar o Cine Vielas para outras comunidades, como Chácara do Céu e Rocinha, mas acha que ainda é cedo para sair do Vidigal, onde ainda há muitas vielas a serem exploradas. Primeiro ele quer, também, estruturar melhor o projeto, que não conta com patrocínio ou nenhum tipo de apoio, a não ser da própria comunidade que colabora como pode:

— Tudo acontece na força e na coragem, muitas vezes com recursos próprios meus e com a ajuda dos moradores. Meu sonho é ter um patrocínio para ampliar o projeto educativo.

Essa melhor estrutura passa pelo telão, que ele ainda sonha conseguir por doação. O problema hoje é quando chove e molha a “tela”. Enquanto o lençol não seca, as exibições são suspensas.

Grupo também promove dois eventos anuais

Além da projeção de filmes, o Cine Vielas costuma realizar pelo menos dois eventos temáticos por ano. O “Sonho de Páscoa” é um deles, quando as crianças recebem bombons e chocolates. O outro é o “Natalizando Sorrisos”, com a distribuição de brinquedos. Para ambos, Gargamel conta com doações de comerciantes locais. Também por meio da ajuda de parceiros, ele consegue atender algumas famílias cadastradas com entrega de cestas básicas, muito úteis durante a pandemia. Um dos objetivos de Gargamel é levar o projeto para escolas públicas da comunidade:

— O que me move é a emoção. Uma mãe me agradecer porque nunca tinha tido oportunidade de levar o filho ao cinema.

A moradora Naiane de Souza Santos, de 20 anos, estava com o filho, Levi, de 1, na exibição de quinta-feira:

— Faz tanto tempo que fui ao cinema que nem me lembro do nome do filme.



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Fonte: G1