DJ criado no Jacarezinho monta estúdio dentro da favela e faz sucesso nas plataformas de música

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“Eles nunca vão reconhecer. Mas sempre vão querer julgar. Pouco pra falar, muito pra fazer. Eu sei aonde eu posso chegar”. Os versos de “Visionário”, do parceiro Haza, refletem o jeito confiante do produtor do trap, o DJ Chris Beats ZN, que sabe o quer desde a infância, e que teve no pai seu maior incentivador. Aos 23 anos, o artista autodidata, criado entre o Jacarezinho e Manguinhos — comunidades separadas apenas pela Avenida Dom Helder Câmara —, vive da música, que reflete a violência do lugar onde mora, e está construindo sua própria casa, dentro da favela, com direito a estúdio no capricho.

Prova do sucesso é o disco de platina que o jovem recebeu da gravadora Som Livre, em outubro do ano passado, pelo volume de plays e views que somou em suas plataformas digitais. Só no Spotify, serviço de streaming de música mais usado do mundo, os números são gigantes: seu perfil tem mais de 1,7 milhão de ouvintes mensais; e “Corte Americano” (do rapper Filipe Ret), sua produção mais popular entre as mais de 90, bateu 51 milhões de cliques. Referência no lugar onde vive, com a entrada do Cidade Integrada no Jacarezinho, participou recentemente da primeira de uma série de reuniões previstas com a secretária estadual de Cultura, Danielle Barros:

— Tomara que a situação melhore, porque minha região não tem nada.

No YouTube, Chris também decolou. Criou um canal musical que tem mais de 200 mil inscritos: o SoudCrime, onde artistas de favelas divulgam a cultura do trap (vertente do movimento hip hop), cantando o seu cotidiano.

— É soud e não sound (som em inglês), para deixar o nome mais carioca e não puxar para os gringos. O crime é porque, nas músicas, a gente conta muito a realidade aqui de dentro — explica ele.

Filho grato, pai orgulhoso

Juninho, como é chamado em família, atribui o sucesso ao pai. Foi Cristiano da Rocha Brás, de 46 anos, apaixonado por música, que, ao perceber o dom do filho desde cedo, passou a levar o menino em encontros de DJs.

— Quando a gente fazia nossas festas, ele, pequeno, colocava musiquinhas para tocar. Cedo, Juninho teve contato com um amigo meu, o DJ Marcio, e se apaixonou pela profissão. Passei a levar meu filho para encontros de DJs. Depois que nos mudamos do Mandela (Complexo de Manguinhos), ele se dedicou a isso, e foi só crescendo — conta o topógrafo por formação, que passou a trabalhar com reformas de casas depois que as obras públicas escassearam.

Chris aos 8 anos posa ao lado do DJ Clebinho, no Baú do Vinil, em Belford Roxo, ao lado do Gigantão da Baixada, o evento de DJs mais antigo do Brasil
Chris aos 8 anos posa ao lado do DJ Clebinho, no Baú do Vinil, em Belford Roxo, ao lado do Gigantão da Baixada, o evento de DJs mais antigo do Brasil Foto: Álbum de família / Agência O Globo

O resultado de tanto incentivo não poderia ser melhor, emociona-se Cristiano:

— Independentemente do que o Juninho tivesse escolhido para o futuro, ele não ter se envolvido com essas coisas de tráfico, com essas coisas que acontecem na comunidade, para mim é muito.

‘Comércio que existe através da música’

Com a mudança do Mandela para a Desup, comunidade pequena de Manguinhos colada à Dom Helder Câmara, o menino, com cerca de 14 anos, conheceu o Pac’stão (junção de PAC, do Programa de Aceleração de Crescimento, com o Paquistão, país do Oriente Médio conhecido pelos confrontos), uma roda de rima, onde aconteciam batalhas de MCs.

O próximo passo foi montar seu primeiro estúdio, na localidade da Vila Mineira, no Jacarezinho, junto com Alexandre Campos, o Xandy MC, que conheceu no Pac’stão.

— Quando criamos o estúdio e passamos a trabalhar com outros artistas, a gente foi aprendendo todo o comércio que existe através da música. Não é só produzir, cantar, fazer beat (ritmo cadenciado). Isso nos ajudou a entender como chegar nas pessoas, nas plataformas digitais, nos grandes artistas. E como fazer parcerias. Abri meus olhos para outro mundo. Não era só fazer música para se divertir e divertir nossos amigos, para passar pela favela e escutar nosso som tocando — ensina Xandy MC, morador do Jacarezinho.

Quanto ao estilo musical, Chris já teve seu momento de funk:

— Gosto de funk. Quando eu era pequeno, o meu sonho era ser DJ de funk. Desisti no meio do caminho. Conheci o rap, e cheguei até a andar de longboard (tipo de skate mais comprido). Depois optei pelo trap (com ritmo mais agitado, é subgênero do rap).

‘Aprendi vendo no YouTube e com amigos’

Chris contabiliza nove anos de carreira profissional, que começou quando passou a frequentar o Pac’stão. Mas foi com a pandemia o seu grande salto. Na era do streaming, ele viu nas plataformas digitais uma forma de divulgar seu trabalho, já que shows e eventos ficaram um bom tempo suspensos. Sem falar que, diz ele, com o isolamento social, as pessoas passaram a ficar mais tempo em casa e a ouvir mais música.

— Há dois anos que vivo só da música, sem depender de outros trabalhos. Eu me sustento com os royalties das plataformas digitais, do direito autoral.

Chris mostra o disco de platina pelas execuções da música mais ouvida que produziu
Chris mostra o disco de platina pelas execuções da música mais ouvida que produziu Foto: Reprodução

Deu certo. Mas, mesmo com o sucesso on-line, o DJ sonha em ir mais longe:

— No Rio, queria me apresentar no Circo Voador e na Fundição.

Outro desejo do jovem artista, que completou o ensino médio, é de fazer um curso de música:

— Toco um pouco de teclado. O que aprendi foi vendo no YouTube, e com alguns amigos ensinando e compartilhando. É complicado, porque na favela são poucas pessoas que têm acesso a cursos, a ensino de música.



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Fonte: G1